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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Para ler, ver e ouvir

Sugestão de exercício de imaginação:
Leia o soneto  de Gregório de Matos e imagine uma melodia para ela. 
Depois assista ao video que tem a versão deste mesmo soneto musicada por José Miguel Wisnick e dançada pelo Grupo Corpo.
Curiosidade: em italiano sonetto significa pequena canção ou, literalmente, pequeno som.

MORTAL LOUCURA, de Gregório de Matos

Na oração, que desaterra … a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado … dado,
Pregue que a vida é emprestado … estado,
Mistérios mil que desenterra … enterra
.
Quem não cuida de si, que é terra, … erra,
Que o alto Rei, por afamado … amado,
É quem lhe assiste ao desvelado … lado,
Da morte ao ar não desaferra, … aferra.

Quem do mundo a mortal loucura … cura,
A vontade de Deus sagrada … agrada
Firmar-lhe a vida em atadura … dura.

O voz zelosa, que dobrada … brada,
Já sei que a flor da formosura, … usura,
Será no fim dessa jornada … nada.


LINK para o video com a música e coreografia

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Livro do Desassosego - Fernando Pessoa

A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.

Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.

Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, em seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos. O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.

Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Cem anos de solidão

No momento estou terminando de ler Cem Anos de Solidão (Editora Record), de Gabriel García Márquez, e encontrei um trecho muito interessante que fala sobre rotina (nas páginas 283 e 284).
"A verdade é que Úrsula se negava a envelhecer mesmo depois de ter perdido a conta de sua idade (...) Ninguém soube ao certo quando começou a perder a vista. Mesmo nos seus últimos anos, quando já não conseguia se levantar da cama, parecia simplesmente que estava vencida pela decrepitude, e ninguém descobriu que estava cega. (...) Não disse a ninguém, pois teria sido reconhecer em público sua inutilidade. Empenhou-se num silencioso aprendizado das distâncias das coisas e das vozes das pessoas, para continuar vendo com a memória quando as sombras da catarata já não permitissem ver com os olhos. Mais tarde haveria de descobrir o auxílio imprevisto dos cheiros, que se definiram nas trevas com uma força muito mais convincente do que os volumes e a cor e a salvaram definitivamente da vergonha e da renúncia. (...) Conheceu com tanta segurança o lugar onde ficava cada coisa, que ela mesma às vezes se esquecia que estava cega. Em certa ocasião, Fernanda alvoroçou a casa porque tinha perdido sua aliança de casamento e Úrsula encontrou-a numa estante do quarto das crianças. Era simples: enquantos os outros andavam descuidadamente por todos os lados, ela os vigiava com seus quatro sentidos para que nunca a apanhassem de surpresa, e depois de algum tempo descobriu que cada membro da família repetia todos os dias, sem perceber, os mesmos trajetos, os mesmos atos, e que quase repetiam as mesmas palavras à mesma hora. Só quando saíam dessa meticulosa rotina corriam o risco de perder alguma coisa. Portanto, quando ouviu Fernanda consternada porque tinha perdido a aliança, Úrsula recordou que a única coisa diferente que havia feito aquele dia tinha sido botar as esteiras das crianças no sol, porque Meme tinha descoberto um percevejo na noite anterior. Como as crianças assistiram à limpeza, Úrsula pensou que Fernanda havia posto a aliança no único lugar onde elas não poderiam alcançar: a estante. Fernanda, por sua vez, procurou-a unicamente nos trajetos de seu itinerário cotidiano, sem saber que a busca das coisas perdidas fica prejudicada pelos hábitos rotineiros, e é por isso que dá tanto trabalho encontrá-las".
Gabriel García Márquez ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1982. Como todo bom escritor, ele transforma nosso olhar e nos ajuda a lidar melhor com as cegueiras do nosso rotineiro cotidiano.